quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ORNITOLOGIA (parte XXV)

OBSERVAÇÃO DE AVES
Estuário do Cávado



Aves Exóticas

Agora que está terminada a apresentação da extensa Ordem dos Passeriformes autóctones e ainda antes de regressar à Ordem dos Charadriiformes (quatro famílias do relevante grupo das limícolas), que propositadamente reservei para a conclusão deste estudo, farei uma breve abordagem às aves não indígenas no nosso País, em particular à, por enquanto, única espécie que ocorre e nidifica com regularidade nesta região – o pequeno passeriforme a que nos habituamos a chamar de Bico-de-lacre.

(Não esquecer que já na Parte VII foi feita uma primeira referência a algumas aves exóticas que ocorrem neste estuário, em concreto a alguns anatídeos, onde salientei a importância do acompanhamento da evolução da distribuição destas espécies no nosso território no sentido de se evitarem em tempo útil alguns riscos que essas potenciais invasoras possam representar para a ecologia das nativas.)


Ordem Passeriformes

Família Estrildidae
(uma espécie)


Estrilda astrild (Bico-de-lacre)



















Originária de África, esta ave, com estatuto de conservação não aplicável à realidade nacional, mas que, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), é Pouco Preocupante nas regiões do globo de onde é nativa, terá sido introduzida em Portugal há mais de quarenta anos, provavelmente a partir da região centro (Oeste) e do Vale do Tejo. Quanto ao litoral norte, recordo-me que, no mínimo, já desde inícios da década de 80, a zona envolvente à «Lagoa da Apúlia» era muito concorrida pelos passarinheiros que capturavam estas aves, já então muito numerosas, para fins ornamentais.

Quanto à realidade actual na faixa costeira minhota, é seguro referir que a espécie é comum e já se reproduz com frequência. Apesar de estas aves poderem ser consideradas residentes na região, a comparação das notas de campo desde 1998 indicia um claro aumento do número de indivíduos observados a partir do mês de Setembro até Novembro (desconheço se poderemos estar perante migradores de passagem). São facilmente detectáveis, tanto por apresentarem o bico e a plumagem (lista ao longo dos olhos tipo máscara e o peito) vistosamente colorida de vermelho, ou então pelas vocalizações (“tchetché tchetché”) perfeitamente audíveis enquanto se transferem de poleiro normalmente em voos curtos. A sua identificação também não oferece grandes dificuldades pois o seu aspecto geral é simplesmente único. Adaptaram-se com sucesso a vários tipos de habitats diferentes mas aparentemente preferem as imediações de planos de águas ou zonas húmidas, tais como, ambas as margens do Estuário do Cávado pelos campos agrícolas e incultos de Gandra ou de Fão (entre as Pedreiras, a orla do juncal adjacente e daqui até ao Sapal) e, como já referi, a agra em torno do Caniçal da Apúlia e ao longo da Mata de Pinheiro e Folhosas entre Fão e Apúlia, por onde são avistados frequentemente em bandos (como documentam as imagens).



















No Atlas das Aves Nidificantes em Portugal (AANP) foi incluído na secção das espécies não autóctones com nidificação regular (onde consta que a sua área de distribuição se estende de norte a sul do País sobretudo pelo litoral).



Outras Ordens, Famílias ou Espécies
(número indeterminado)

Além desta última ave, tanto no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal como no Atlas das Aves Nidificantes em Portugal (AANP) (ambas as obras da responsabilidade do insuspeito Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade), ainda consta um número considerável de outras espécies exóticas de ocorrência regular no nosso País, algumas delas com populações estáveis e que já nidificam em estado selvagem após processo de introdução por sucessivas fugas ao cativeiro. De entre um número crescente de espécies, gostaria, então, de destacar as que esporadicamente já observei em liberdade neste estuário, em zonas adjacentes ou em regiões relativamente próximas, mas cuja nidificação nunca comprovei, a saber:


ORDEM PSITTACIFORMES

FAMÍLIA PSITTACIDAE

Psittacula krameri (Periquito-de-colar)

Os primeiros registos de ocorrência regular no território nacional deste periquito de grande porte, originário das regiões tropicais de África e da Ásia, datam do início dos anos 80. Na década seguinte pude atestar que nos jardins com árvores mais frondosas da cidade de Lisboa, em particular na zona da Lapa e da Estrela, já ocorriam bandos constituídos por várias dezenas de indivíduos que por ali tinham um dormitório, tratando-se obviamente de uma população selvagem bem estabelecida. Ainda antes de entrarmos neste século, em plena cidade de Aveiro (e arredores), cheguei a observar por mais do que uma vez a ocorrência destas aves (nunca isoladas). Em 2001, nos meses de Fevereiro (dois indivíduos) e de Outubro (quatro indivíduos), testemunhei a passagem de periquitos em tudo semelhantes a estes pelo Estuário do Cávado (em ambos os episódios entre o Hotel do Pinhal e a Estalagem do Parque do Rio e daqui para a margem oposta). De qualquer modo não estou seguro que fossem efectivamente desta espécie ou, mesmo que tal se confirmasse, se fariam parte de alguma população selvagem ou, ainda, se estaria perante meros episódios de evasões recentes ao cativeiro. Presentemente, nos Jardins de Serralves e no Parque da Cidade no Porto é muito frequente observarem-se em liberdade periquitos com silhueta e dimensões equivalentes.
Assim, embora permaneçam por confirmar episódios de reprodução da espécie por estas latitudes (considere-se, contudo, que na Europa e em climas menos temperados do que o do norte de Portugal isso já ocorra, por exemplo em Londres), e tendo em conta que, conforme o referido no AANP, relativamente a esta espécie “nota-se uma clara expansão num intervalo de poucos anos”, não será de surpreender que nesta região e a breve prazo possa suceder o estabelecimento de populações viáveis destas aves na natureza.

No AANP foi incluído na secção das espécies não autóctones com nidificação regular (confirmada na região da Grande Lisboa e Vale do Tejo, bem como já numa pequena parcela do Litoral Centro).




ORDEM PASSERIFORMES

FAMÍLIA STURNIDAE

Lamprotornis sp. (Melros ou Estorninhos-metálicos)

Devido às suas cores vivas e iridescentes, são muito populares como aves de gaiola e, por tal, havendo o risco das fugas se multiplicarem, registam-se alguns avistamentos de indivíduos deste género dos pássaros em liberdade. Apesar disso, não consta que estes parentes próximos dos “nossos” tão familiares estorninhos, mas de distribuição geográfica quase exclusiva ao continente africano, se tenham adaptado com sucesso ao nosso clima e estabelecido populações selvagens no território nacional.
Nesta região também se podem testemunhar alguns episódios esporádicos de espécimes escapados ao cativeiro e, curiosamente, as aves são, em regra, encontradas em habitats ou em circunstâncias semelhantes às dos estorninhos. Em 2001, durante algumas semanas, foi observado um indivíduo que, acompanhado de melros e estorninhos, frequentava o relvado da Pousada da Juventude em Fão, onde obtinha com relativa abundância o alimento. Desde então, até ao presente ano (p.ex. na zona do Ramalhão em Fão), já assinalei a presença de vários indivíduos isolados, sobretudo em jardins públicos ou particulares, onde a vegetação exótica envolvente lhes proporciona condições para sobreviverem durante períodos mais ou menos alargados.

No AANP não estão incluídos em qualquer secção.


Acridotheres tristis
(Mainá-indiano
ou Mainato-de-mascarilha-amarela)

Nativa do longínquo Sudeste da Ásia, esta ave, ainda aparentada com a anterior, também se vulgarizou como ornamental, não pelos mesmos motivos estéticos mas antes pelos seus dotes enquanto imitadora das vocalizações de outros animais. Embora esteja inscrita em várias listas internacionais como espécie potencialmente invasora (as suas evasões ao cativeiro são uma séria ameaça para as espécies autóctones), por enquanto, não há indícios de se ter naturalizado em Portugal, mas é uma das aves exóticas mais vistas em liberdade e o litoral norte do País não foge à regra. Já foi registada a sua presença nas imediações do «Fojo» em Fão (em Dezembro de 2000), um indivíduo visivelmente saudável que, após ter revolvido uma pilha de lixo durante mais de meia hora, capturou uma lagartixa que lhe serviu de alimento. Posteriormente (no Verão de 2006), foi observado outro perto da Pousada da Juventude, também rente ao solo (tipo melro) aparentemente à procura de algo para comer (nesta mesma altura e em circunstâncias semelhantes também foi avistado um indivíduo na margens do vizinho Rio Lima perto de Viana do Castelo).

No AANP não estão incluídos em qualquer secção, todavia, ali surge o congénere Acridotheres cristatellus (Mainato-de-poupa ou de crista) na secção das espécies não autóctones com nidificação regular (confirmada na região da Grande Lisboa e Península de Setúbal).



FAMÍLIA PLOCEIDAE

Euplectes afer (Arcebispo ou Bispo-de-coroa-amarela)

A comercialização massiva de aves desta família, provenientes principalmente de África e que são conhecidas vulgarmente por Tecelões, Viúvas ou Bispos, tornou-as numas das espécies não indígenas mais vistas em liberdade em Portugal Continental. Assim, mais uma vez graças à intervenção humana, algumas destas aves já encontraram no nosso território, em particular nas zonas húmidas, condições para proliferarem em estado selvagem.
Entre Julho de 1998 e Outubro do mesmo ano (durante quase três meses) permaneceram no Estuário do Cávado (no juncal) dois machos exibindo as suas vistosas plumagens “pintadas” de negro e amarelo brilhante próprias da época de reprodução, contudo, as fêmeas, bem mais discretas por não serem muito diferentes das dos pardais, não foram detectadas durante o mesmo período (possivelmente por não serem tão conspícuas). No Verão seguinte já só foi confirmada a presença de um macho e, depois destes dois anos consecutivos, apenas no Verão de 2006 voltou a ser registada a sua ocorrência (também um macho).
Assinalo ainda que, supostamente num processo de dispersão de sul para norte, no Baixo Vouga Lagunar, habitat com características favoráveis, é cada vez mais comum o avistamento de alguns destes espécimes, pelo que a sua naturalização para breve naquela região “vizinha” não será impossível.

No AANP esta ave foi incluída na secção das espécies não autóctones com nidificação regular (confirmada sobretudo no Estuário e ao longo do Rio Tejo, mas também estão registados avistamentos pontuais pelo litoral até à região da Ria de Aveiro onde a sua nidificação será provável).



FAMÍLIA ESTRILDIDAE

Lonchura malacca (Bico-de-chumbo ou Capuchinho-de-cabeça-preta)

Espécie indígena na Ásia e na Indonésia que também logrou escapar ao triste destino enquanto simples ave ornamental e que já começou a colonizar o nosso território. Sendo muito requisitada para estes fins, é provável que o avistamento de indivíduos desta espécie por estas paragens seja o resultado de meras fugas ou largadas fortuitas, mas, efectivamente, em Abril de 2001, no Caniçal da Apúlia foram detectados dois espécimes, aparentemente saudáveis, num campo de ervas altas acompanhando um extenso bando de pardais. Pela mesma altura, quase que seguramente um indivíduo da mesma espécie foi observado num charco temporário resultante de um abaixamento do solo onde abundava vegetação palustre, especialmente Tábua (Typha sp.), no seio da mata de pinheiro a sul de Fão.

No AANP esta ave foi incluída na secção das espécies não autóctones com nidificação regular (confirmada sobretudo pelos Rios Tejo e Sado, mas também há registos da sua ocorrência pelo litoral norte).