sexta-feira, 14 de agosto de 2009

ORNITOLOGIA (parte XXIII)

OBSERVAÇÃO DE AVES
Estuário do Cávado


Ordem Passeriformes

Família Corvidae

(três espécies)

Garrulus glandarius (Gaio)





































1 – (Estatuto de conservação) Pouco preocupante;
2 – (Quando observar) Residente;
3 – (Abundância) Cada vez mais comum;
4 – (Espécies parecidas) Nenhuma;
5 – (Habitat e circunstâncias em que se observam) Dificilmente abandonam a “cortina” protectora do pinhal; são mais abundantes na mata entre Fão e Apúlia onde pontuam algumas manchas de folhosas, do que na orla do estuário pelo menos tranquilo Núcleo Turístico de Ofir; anunciam os seus movimentos por entre os ramos das árvores ou no solo através de chamamentos ruidosos e ásperos, como aquele “xxiiáá… xiá iá” lentamente repetido quando voam com aparência desajeitada ou saltitam pelo chão na procura de alimento; a partir do final do Inverno são detectados mais facilmente em virtude de se agregarem em pequenos grupos que parecem manterem demoradas “conversas” constituídas por uma panóplia infindável de sons curiosos; a barra azul brilhante nas penas de cobertura das asas e o uropígio branco tornam-na uma ave muito vistosa;
6 – (Tolerância à nossa presença) Muito cautelosos, aliás, se um dos elementos de um bando nos descobre, o que acontece quase sempre, logo lançará o alarme aos restantes com chamamentos barulhentos e acelerados, provocando a debandada geral (até de indivíduos de outras espécies); o sombrio registo fotográfico do exemplar pousado só foi conseguido com recurso a esconderijo e o da ave em voo, resultado de um mero acaso, apenas o exibo por considerar importante mostrar o realce colorido de azul cintilante na asa;
7 – (Outros dados de interesse) Ver igual número da congénere seguinte, onde é feita referência ao facto destas aves (corvídeos) desenvolverem a capacidade de imitarem vocalizações de outras espécies; foi cómico perceber que um dos membros do bando do exemplar da primeira foto (talvez o próprio) emitia constantemente um chamamento igual ao “piiiiiiiiuuuuu” de longo alcance característico da Águia-de-asa-redonda.


Pica pica (Pega)






















































1 – Pouco preocupante;
2 – Residente;
3 – Cada vez menos comum;
4 – Inconfundível;
5 – Geralmente vêem-se aos pares ou em pequenos bandos a sobrevoarem a zona do estuário entre o Núcleo Turístico de Ofir, onde parece que principalmente pernoitam (e um ou outro casal comprovadamente nidifica), e a margem oposta dos campos de cultivo em Gandra onde passam várias horas a alimentarem-se; também é vulgar encontrá-las perto dos lodaçais a descoberto na maré vaza por entre as pequenas aves limícolas; apesar de se avistarem habitualmente a sobrevoar o pinhal nas redondezas da estalagem e dos hotéis em Ofir até sensivelmente à capela da Sra. da Bonança, daqui para a mata que se estende a sul quase nunca são observadas, sendo então substituídas pelos “primos” Gaios; há, pelo menos, dois casais que frequentam um pequeno pomar abandonado no seio da malha urbana de Fão e também não é raro ver um ou outro indivíduo a aventurar-se a apanhar “petiscos” (é uma ave omnívora e oportunista) em relvados em plena cidade de Esposende ou ainda a debicar carcaças de animais atropelados nas beiras das estradas;
6 – Bastante ariscas; são tão vistosas quanto barulhentas (quem nunca ouviu por aí aquele “Xiiá… Xá Xá Xá Xá Xá Xá” decrescente e rápido como uma gargalhada, ou aquele chamamento que mais parece o som do obturador de uma máquina fotográfica antiga a disparar?); assim, pode considerar-se que são muito fáceis de localizar, contudo a sua agitação é constante e fogem sempre que nos vêem; vale-nos o hábito que têm de voarem lentamente e a baixa altitude, o que nos permite captar com relativa facilidade o exuberante colorido metalizado das suas penas esverdeadas na longa cauda e azuladas nas asas sobre um fundo contrastante de branco e preto;
7 – Devido à facilidade de se domesticarem, também por desenvolverem a capacidade de palrar, ou seja, imitarem a voz humana (como os papagaios) e por serem, manifestamente, aves muito inteligentes e interagirem com as pessoas, tornou-se tradição a manutenção de corvídeos (gaios, pegas, gralhas e corvos) em cativeiro; muitos destes exemplares, enclausurados mas sempre selvagens, desenvolvem doenças associadas à privação da liberdade como o stress que se traduz, por exemplo, na repetição constante de determinados movimentos e gestos ou ainda na auto-flagelação como o arranque das próprias penas; felizmente já não faltam centros de acolhimento para animais vítimas deste género de agressões, onde o drama poderá ser reparado ou minorado; por exemplo, os próprios serviços do Parque Natural podem ajudar quem pretenda (fazer) encaminhar estas aves para um fim mais digno.


Corvus corone (Gralha-preta)
1 – Pouco preocupante;
2 – Os poucos registos de ocorrência desta ave no Estuário do Cávado verificaram-se quase sempre entre Outubro e Março, sobretudo entre os anos de 1999 até 2002 (sempre indivíduos isolados);
3 – Embora seja abundante em grande parte do continente nacional, onde ocorre como residente, nesta região em concreto será pouco mais do que Acidental; nas zonas mais elevadas do concelho de Esposende, nomeadamente nos Montes de Faro e de S. Lourenço são observadas com maior regularidade mas sempre escassamente (avistado este ano um indivíduo no sopé do primeiro a 27 de Março);
4 – Ainda existem outras espécies de Gralhas e até o próprio Corvo que partilham muitas semelhanças com esta espécie, todavia, nenhuma delas terá sido observada na região; ver ainda o ponto número 7;
5 – Na bibliografia em que apoio este estudo (com a confirmação das minhas observações de campo noutras regiões do país), é indicado que esta espécie ocorre em todos os tipos de habitats naturais, semi-naturais e urbanos, entre os quais surgem como muito favoráveis os rios e estuários, os biótopos litorais e os pinhais (que privilegia para nidificar), bem como zonas agro-florestais, ou seja, um pouco o retrato desta área; deste modo, revela-se muito estranho o quase desaparecimento desta espécie no concelho de Esposende; recordo-me que há mais de vinte anos era relativamente comum verem-se alguns indivíduos a pairarem nos nossos céus, em particular sobre os campos de cultivo desde Gandra até à Barca do Lago e mesmo sobre a zona das Pedreiras em Fão;
6 – Tenho a vaga sensação de que são fugidias como os seus congéneres anteriores;
7 – Na Península Ibérica e em boa parte do Reino Unido e da Europa Ocidental ocorre a subespécie C. c. corone; no restante continente europeu mais para leste, países nórdicos, Itália e ilhas adjacentes e ainda norte das Ilhas Britânicas está presente a C. c. cornix; distinguem-se facilmente em virtude de, enquanto a “nossa” ser totalmente negra, a subespécie mais oriental apresenta o abdómen e o dorso cinzento; até há cerca de dez anos era habitual observar-se uma gralha com as cores preta e cinzenta a sobrevoar parte da malha urbana de Fão até às imediações do Hotel do Pinhal e mesmo o estuário, que, efectivamente, era da subespécie C. c. cornix, contudo soube-se que foi simplesmente trazida em cativeiro e para fins ornamentais por emigrantes na ilha da Córsega onde estas aves serão vulgares.



Família Sturnidae(duas espécies)


Sturnus vulgaris (Estorninho-malhado)























1 – Pouco preocupante; espécie cinegética, alvo das espingardas dos caçadores desde 1 de Novembro até 21 de Fevereiro;
2 – Surgem em Setembro, alguns raramente em Agosto; embora permaneçam por cá alguns indivíduos até Março (Invernantes), devem ser considerados principalmente Migradores de Passagem;
3 – Apenas são comuns, ou mesmo pontualmente numerosos, em Setembro ou Outubro;
4 – Notavelmente mais sarapintado e colorido que o Estorninho-preto (ver igual número desta espécie);
5 – Tendem a ser aves muito gregárias, o que eventualmente poderá ocorrer com as que atravessam estas paragens, contudo, tais circunstâncias verificam-se em particular nos locais onde a espécie dispõe de importantes dormitórios (o mais próximo que conheço localiza-se num dos pontos mais elevados da cidade do Porto); os campos de cultivo ao longo do Estuário do Cávado por toda a extensão da margem direita até aos Estaleiros em Esposende e nas Pedreiras do lado de Fão, são óptimos locais para as observar pousadas no solo a alimentarem-se, bem como nos fios de alta tensão a descansarem, ou ainda a atravessarem o rio em formações extensas;
6 – No aspecto comportamental também se compara, de algum modo, ao congénere Estorninho-preto (ver igual número desta espécie);
7 – São estas as aves que inspiraram aquele anúncio de uma marca francesa de automóveis, que ainda há bem pouco tempo podíamos ver na televisão, em que um bando em voo compacto formava várias figuras curiosas nos céus a um ritmo sincronizado; por cá estes admiráveis espectáculos, infelizmente, são pouco comuns, mas se porventura, principalmente sobre o Cávado e ao fim da tarde, tivermos a sorte de assistir ao momento da passagem de um grande bando de estorninhos em que a determinada altura todos mudam de direcção em simultâneo, certamente ficaremos deslumbrados com esta visão “mágica” da natureza.


Sturnus unicolor (Estorninho-preto)

































































1 – Pouco preocupante;
2 – Residente;
3 – Comum, mas, principalmente a partir de Setembro, pode tornar-se muito abundante;
4 – A sua silhueta é praticamente igual à do Estorninho-malhado mas a plumagem é mais uniformemente negra e bastante menos iridescente (consultar guias de campo para mais pormenores); para os menos familiarizados com a observação de aves, também há a considerar alguns aspectos relacionados com a aparência (tamanho, penas pretas e bico amarelo) e hábitos comuns (p.ex. procura de minhocas em relvados de jardins e prados) iguais aos do Melro-preto, do qual os estorninhos se distinguem por apresentarem a cauda muito mais curta e por caminharem (parece que coxeiam) quando estão no solo, em vez de saltitarem como o melro;
5 – Normalmente encontram-se em bandos compostos por um número de indivíduos que pode ir desde menos de uma dezena até às muitas centenas; conforme o já referido, são comparáveis aos Estorninhos-malhados, até nos locais de ocorrência;
6 – Por serem muito ruidosos, em particular quando se acomodam numa árvore para dormirem, facilmente se detectam; à semelhança do que já foi indicado para o Melro-preto, o à-vontade com que permitem a aproximação das pessoas aumenta na mesma medida em que crescem os aglomerados urbanos, ou seja, enquanto aqueles que ocorrem no campo são fugidios, nos jardins das cidades manifestam-se muito acostumados à nossa presença;
7 – Diariamente, a partir dos finais de tarde, um elevadíssimo número destas aves coloniza uma pequena zona arborizada próxima da Alameda do Bom Jesus em Fão, tornando-se interessante observar os inúmeros bandos a chegarem numa cadência crescente à medida que a noite se aproxima; nestas circunstâncias é comum verem-se as aves num voo laborioso em aproximação rápida ao local de pernoita, seguida de um abrandamento até que quase param no ar com as asas imóveis e por fim “mergulham” à vez, uns atrás dos outros, parecendo que “chovem” até desaparecerem por entre a folhagem da árvore escolhida.