sábado, 9 de outubro de 2010

OBSERVAÇÃO DE AVES (SETEMBRO 2010) (1ª. de 3 partes)

Resumo das minhas notas de campo sobre observação de aves no Estuário do Cávado e habitats envolventes

Ano após ano, o período de migrações pós-nupciais, que atinge o seu auge no decorrer de Setembro, trás a esta zona húmida uma quantidade e variedade de aves difícil de igualar em qualquer dos restantes onze meses. A confirmação desde facto veio “obrigar-me” a dividir em três resumos a descrição do que ficou por mim registado no último mês (e houve, entre o número crescente de birdwatchers, quem tenha feito outras “descobertas” aqui). Na terceira parte, apresentarei a (já há muito esperada) inscrição de quatro novas espécies na longa lista de aves por mim observadas na área em estudo, enquanto a segunda parte ficará reservada para uma amostra dos passeriformes que, de passagem ou com estatuto de invernantes, fazem dos habitats que o Cávado lhes oferece uma autêntica “estação de serviço”.

Mas comecemos pela extensa ordem dos Charadriiformes que é, de certa forma, a que melhor carateriza o litoral português nesta época e na qual se encontram representadas aquelas a que nos habituamos a chamar, muito justamente, por aves de arribação. Logo após o registo, ainda em Agosto, das primeiras migradoras de passagem, tornou-se evidente um aumento entre aquelas que, em maior ou menor número, se mantêm entre nós durante todo o ano, como os habituais Maçaricos-das-rochas (Actitis hypoleucos) ou os elegantes Pernas-verdes (Tringa nebularia).





































Estas atentas sentinelas do estuário foram recebidas pacificamente pelos “primos” de patas mais vistosas, os Pernas-vermelhas (Tringa totanus), que, num pequeno grupo, se mantiveram entre nós durante todo o Verão.



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

As Rolas-do-mar (Arenaria interpres), agora bem mais discretas,
 
 




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
os Borrelhos-grandes-de-coleira (Charadrius hiaticula),  




































ou ainda os Pilritos-d’areia (Calidris alba) e os Pilritos-comuns (Calidris alpina), igualmente despidos dos trajes cerimoniais de acasalamento,




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

ocorreram em grande número e, apesar da maioria se preparar para seguir destino a sul, sabemos que uma boa parte dos seus bandos permanecerão por cá durante o próximo Inverno.


Por sua vez, os muito parecidos mas mais robustos Pilritos-de-bico-comprido (Calidris ferruginea),





















































os Maçaricos-galegos (Numenius phaeopuis), este ano em números anormalmente reduzidos, os escassos Combatentes (Philomachus pugnax) e as Seixoeiras (Calidris canutus),



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

mostravam-se bem mais apressados pois, assim que sentiam as forças restabelecidas pela proveitosa pausa de repouso e alimentação, logo “fugiam como quem não quer pagar a conta”.


Já os Maçaricos-de-bico-direito (Limosa limosa) e os Fuselos (Limosa lapponica), bem equipados para se servirem do banquete nos lodaçais, não quiseram desperdiçar a abundância e lá se demoraram por algumas semanas.



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 






















































































Por fim, ainda entre as limícolas, e sob os “gritos” das andorinhas-do-mar, nas quais se destacavam os Garajaus-comuns (Sterna sandvicensis), começaram a regressar as tipicamente invernantes Narcejas (Gallinago gallinago), os Abibes (Vanellus vanellus) e as sempre esperadas Tarambolas-cinzentas (Pluvialis squatarola).





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Dirigindo a atenção para outras ordens das aves, mas sem nos afastarmos da zona ribeirinha, testemunhamos uma grande actividade, sobretudo no “balcão das chegadas”. Desde o primeiro registo de um cauteloso Mergulhão-de-pescoço-preto (Podiceps nigricolis), até ao avolumar dos bandos de Garças-brancas-pequenas (Egretta garzetta) e de Garças-reais (Ardea cinerea), passando pelo regresso em catadupa dos Corvos-marinhos-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo), são muitos os motivos para continuarmos atentos ao meio aquático. Enquanto cresciam os bandos selvagens de Patos-reais (Anas platyrhynchos), vimos juntarem-se-lhes dois casais de Frisadas (Anas strepera), o primeiro par de Marrequinhos (Anas crecca) e a passagem de um Merganso-de-poupa (Mergus serrator). Curiosamente ainda observamos, logo desde o início mês, os primeiros sinais de movimentações entre os sempre aguardados “patos” exóticos. No dia 3 chegou aos cais de Fão um(a) parceiro(a) para o Pato-ferrugíneo (Tadorna tadorna), poucos dias depois registou-se a presença de uma Piadeira-do-chile (Anas sibilatrix) ou Piadeira-americana (Anas americana) – espécie em concreto ainda por confirmar – a juzante da ponte de ferro, no lado oposto mas a poucas centenas de metros do local onde um suposto híbrido daquelas duas espécies se instalou desde o último Verão e, finalmente, foi visto um Pato-das-bahamas (Anas bahamensis) a passear-se tranquilamente entre as hordas dos anatídeos nativos.


Também constaram no meu bloco de notas dois “sustos” que as rasteiras Codornizes (Coturnix coturnix) me pregaram ao “dispararem” em voo para longe, na iminência de serem calcadas entre as ervas altas dos prados salgados. Embora em números ainda modestos as Galinhas-d’água (Gallinula chloropus) deram indícios de querem colonizar as “ribeiras” em torno do leito principal do rio onde os primeiros Galeirões (Fulica atra) se anteciparam ao aparecimento das massas infestantes de jacintos que por hábito perseguem.






 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Os últimos Andorinhões-pretos (Apus apus), que se esforçavam por aniquilar o maior número possível de insectos, já não evitavam que fôssemos frequentemente atacados pelas incómodas moscas enquanto espiávamos, imóveis, os muito assediados Guarda-rios (Alcedo atthis).




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Pelas margens ainda puderam ser avistadas algumas Poupas (Upupa epops) cuja excentricidade só era ultrapassada pelos Torcicolos (Jynx torquilla), hábeis destruidores de formigueiros que não dispensam a proximidade dos matos e dos silvados onde se tornam “invisíveis”.




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Esta capacidade de “desaparecerem”, muito eficaz para evitarem as lentes dos fotógrafos da natureza, serviam-lhes principalmente para se esquivarem aos constantes ataques dos Gaviões (Accipiter nisus) (macho e fêmea) e de um tartaranhão (Circus sp.), muito provavelmente o mais pequeno de todos, o T.-caçador (C. pygargus), espécie ainda não confirmada por mim no litoral norte (a péssima qualidade dos registos fotográficos obtidos não me permitem, por enquanto, atestar em absoluto a ocorrência entre nós desta ave).


Mas outras haviam que, mais do que às lentes das máquinas fotográficas, até às dos binóculos conseguiam escapar – refiro-me, obviamente, às rapinas nocturnas. Não poucas vezes, as Corujas-das-torres (Tyto alba), ainda antes de se lançarem pela escuridão do juncal, anunciavam o início do ataque aos roedores com um “rangido” agudo, o que denunciava a sua passagem como um clarão deslizante. Contudo, tanto o Mocho-galego (Athene noctua) que frequentou os campos agrícolas em torno da Pousada da Juventude da Foz do Cávado, como as Corujas-do-mato (Strix aluco) que se “lamentavam” ali para os lados do ex-pinhal da Bonança, apenas eram detectados pelas respectivas vocalizações.

E impossível de não ser avistado foi o bando em «V» composto por 14 (catorze) imponentes Colhereiros (Platalea leucorodia) que no dia 23 sobrevoou demoradamente todo este estuário,




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

confirmando-nos a entrada definitiva no Outono.